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Hora da leitura: A escolha
13:31 A leitora 0 Comentários Categoria : Hora da Leitura , leitura
— Quero contar a vocês uma história real que me aconteceu há uns sessenta anos. Quando eu estava na sexta série, meu professor, Sr. Caimi, proferiu as palavras
que naquele momento bateram em mim como as mais profundas jamais ditas. Ascrianças da sala estavam reclamando por terem que fazer o dever de casa, e o Sr.
Caimi gritou: "Eu não posso obrigar vocês a fazerem o dever de casa!" Aquilo chamou nossa atenção e ficamos quietos. Ele continuou: "Há apenas duas coisas nesta vida que vocês têm que fazer. Vocês têm que morrer e têm que..."
— Pagar impostos! — interrompeu o sargento.
— Exatamente, Greg, morrer e pagar impostos. Naquele momento eu achei que aquela era a coisa mais libertadora que eu jamais ouvira! Que coisa! Isto é, eu estava apenas na sexta série, e morrer parecia a um milhão de anos de distância. E, como não tinha dinheiro, não podia pagar impostos. Eu me senti absolutamente livre! Quando fui para casa terça-feira à noite, meu pai disse: "Filho, por favor, leve o lixo para fora."Eu respondi: "Ei, espere um minuto, papai. O Sr. Caimi nos ensinou hoje que há somente duas coisas na vida que temos que fazer: morrer e pagar impostos." Nunca esquecerei sua resposta. Ele olhou para mim e disse, muito devagar mas, claramente: "Filho, estou contente por você estar aprendendo tantas coisas valiosas lá na escola. Agora, é melhor pegar logo esse lixo porque você acaba de optar por morrer!"
Depois que a risada cessou, Simeão continuou:
— Mas, vocês sabem, o Sr. Caimi não disse a verdade naquele dia. Há pessoas que optam por não pagar impostos. Enquanto estou aqui falando, há pessoas nas florestas do noroeste do Pacífico que têm vivido do cultivo da terra desde a Guerra do Vietnã. Elas nem mesmo usam dinheiro, muito menos pagam impostos. Amigos, há apenas duascoisas na vida que vocês têm que fazer. Vocês têm que morrer e fazer escolhas. Dessas não há como escapar.
— Quero contar a vocês uma história real que me aconteceu há uns sessenta anos. Quando eu estava na sexta série, meu professor, Sr. Caimi, proferiu as palavras
que naquele momento bateram em mim como as mais profundas jamais ditas. Ascrianças da sala estavam reclamando por terem que fazer o dever de casa, e o Sr.
Caimi gritou: "Eu não posso obrigar vocês a fazerem o dever de casa!" Aquilo chamou nossa atenção e ficamos quietos. Ele continuou: "Há apenas duas coisas nesta vida que vocês têm que fazer. Vocês têm que morrer e têm que..."
— Pagar impostos! — interrompeu o sargento.
— Exatamente, Greg, morrer e pagar impostos. Naquele momento eu achei que aquela era a coisa mais libertadora que eu jamais ouvira! Que coisa! Isto é, eu estava apenas na sexta série, e morrer parecia a um milhão de anos de distância. E, como não tinha dinheiro, não podia pagar impostos. Eu me senti absolutamente livre! Quando fui para casa terça-feira à noite, meu pai disse: "Filho, por favor, leve o lixo para fora."Eu respondi: "Ei, espere um minuto, papai. O Sr. Caimi nos ensinou hoje que há somente duas coisas na vida que temos que fazer: morrer e pagar impostos." Nunca esquecerei sua resposta. Ele olhou para mim e disse, muito devagar mas, claramente: "Filho, estou contente por você estar aprendendo tantas coisas valiosas lá na escola. Agora, é melhor pegar logo esse lixo porque você acaba de optar por morrer!"
Depois que a risada cessou, Simeão continuou:
— Mas, vocês sabem, o Sr. Caimi não disse a verdade naquele dia. Há pessoas que optam por não pagar impostos. Enquanto estou aqui falando, há pessoas nas florestas do noroeste do Pacífico que têm vivido do cultivo da terra desde a Guerra do Vietnã. Elas nem mesmo usam dinheiro, muito menos pagam impostos. Amigos, há apenas duascoisas na vida que vocês têm que fazer. Vocês têm que morrer e fazer escolhas. Dessas não há como escapar.
Hora da Leitura: Receita de Ano Novo
22:54 A leitora 0 Comentários Categoria : Hora da Leitura , leitura
RECEITA DE ANO NOVO
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade
RECEITA DE ANO NOVO
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade
Hora da leitura: eu carrego seu coração comigo ( i carry your heart with me)
21:37 A leitora 0 Comentários Categoria : e.e. cummings , Eu carrego seu coração comigo , Hora da Leitura , i carry your heart with me , leitura , poema
Carrego seu coração comigo (eu o carrego no meu
coração) nunca estou sem ele (onde quer que eu vá
você vai vai, minha querida; e o que quer que seja feito
somente por mim é feito por você, minha querida)
não tenho medo
do destino(pois você é meu destino, minha querida, minha doçura)
não quero
o mundo (pois você linda é o meu mundo, minha verdade)
e você é o que qualquer lua tenha significado
e o que quer que um sol cantar será sempre você
aqui está o mais profundo segredo que ninguém sabe(
(aqui está a raiz da raiz e o broto do broto
e o céu do céu de uma arvore chamada vida, que cresce
mais altado que a alma pode ter esperança ou a mente pode esconder)
e essa é a maravilha que mantém as estrelas separadas
Eu carrego seu coração (eu o carrego no meu coração)
In English ^ ~ :
i carry your heart with me(i carry it in my heart)i am never without it(anywhere i go you go,my dear; and whatever is done by only me is your doing,my darling) i fear no fate(for you are my fate,my sweet)i want no world(for beautiful you are my world,my true) and it's you are whatever a moon has always meant and whatever a sun will always sing is you here is the deepest secret nobody knows (here is the root of the root and the bud of the bud and the sky of the sky of a tree called life;which grows higher than the soul can hope or mind can hide) and this is the wonder that's keeping the stars apart i carry your heart(i carry it in my heart)
Carrego seu coração comigo (eu o carrego no meu
coração) nunca estou sem ele (onde quer que eu vá
você vai vai, minha querida; e o que quer que seja feito
somente por mim é feito por você, minha querida)
não tenho medo
do destino(pois você é meu destino, minha querida, minha doçura)
não quero
o mundo (pois você linda é o meu mundo, minha verdade)
e você é o que qualquer lua tenha significado
e o que quer que um sol cantar será sempre você
aqui está o mais profundo segredo que ninguém sabe(
(aqui está a raiz da raiz e o broto do broto
e o céu do céu de uma arvore chamada vida, que cresce
mais altado que a alma pode ter esperança ou a mente pode esconder)
e essa é a maravilha que mantém as estrelas separadas
Eu carrego seu coração (eu o carrego no meu coração)
In English ^ ~ :
i carry your heart with me(i carry it in my heart)i am never without it(anywhere i go you go,my dear; and whatever is done by only me is your doing,my darling) i fear no fate(for you are my fate,my sweet)i want no world(for beautiful you are my world,my true) and it's you are whatever a moon has always meant and whatever a sun will always sing is you here is the deepest secret nobody knows (here is the root of the root and the bud of the bud and the sky of the sky of a tree called life;which grows higher than the soul can hope or mind can hide) and this is the wonder that's keeping the stars apart i carry your heart(i carry it in my heart)
Dica de Leitura: A garota das laranjas
22:39 A leitora 0 Comentários Categoria : A garota das laranjas , dicas de leitura , Hora da Leitura , livros
Se alguém está à procura de um livro sensível , que conduza a pensamentos mais profundos e, ao mesmo tempo, te deixe encantado com os mistérios da vida, eis aqui uma dica preciosa: A garota das laranjas . Leia e descubra-se apaixonado por essa narrativa diferente e, como não me canso de dizer, toda especial!
Neste novo livro de Jostein Gaarder - o autor que conquistou milhões de leitores de diversas idades com O mundo de Sofia e outros sucessos internacionais -, uma carta que ficou guardada por muito tempo revela ao adolescente Georg Roed uma história extraordinária. O autor da carta é o pai do menino, morto há onze anos - ele escreveu esta longa mensagem de despedida para que o garoto pudesse lê-la depois, quando estivesse mais maduro. [...] Alternando entre a voz de Georg e a do pai, Jostein Gaarder constrói uma narrativa pontuada com perguntas filosóficas, que tratam de temas como o amor, a morte e a grandeza do universo.
Se você gosta de apreciar os bons momentos da vida e sabe compreender a importância de um momento, sabe valorizar aquele que está ao seu lado, prepare-se para sentir seus olhos marejados; se você ainda não parou para pensar em sua própria existência e em como tudo é tão fugaz , tão pequeno, eis uma excelente oportunidade de abrir não só os olhos, mas a mente e o coração.
Deixo então dois de meus trechos preferidos, leia com atenção e reflita ( depois diga-me o que achou ^^):
Se tudo que aconteceu no universo pudesse se condensar num único dia, a Terra só teria surgido no fim da tarde. Os dinossauros apareceriam alguns minutos antes da meia-noite. E os seres humanos existiriam há apenas dois segundos...
Eu me detenho diante dela. Com muito cuidado, acaricio-lhe o cabelo úmido e pouso a mão na fivela de prata em sua nuca. Embora esteja gelada, aquece todo o meu corpo. Porque eu estou mesmo tocando aquela fivela!
Então pergunto:- Quando a gente vai se encontrar outra vez?Ela olha fixamente para o asfalto antes de erguer os olhos e me fitar. Suas pupilas dançam, inquietas, tenho a impressão de que seus lábios estão trêmulos. Então ela apresenta um enigma com o qual ainda hei de quebrar muito a cabeça. Pergunta:- Quanto tempo você consegue esperar?Que diabo de resposta eu podia dar, Georg? Talvez fosse uma armadilha. Se dissesse "dois ou três dias", eu me mostraria impaciente demais. E, se respondesse "a vida inteira", ela podia pensar que eu não a amava tanto assim ou talvez que não fosse sincero. De modo que era preciso encontrar uma resposta intermediária.Eu disse:- Agüento esperar até que o meu coração comece a sangrar de aflição.Ela sorriu, insegura. Então roçou o dedo em meus lábios. E perguntou:- E quanto tempo demora?Desesperado, eu sacudi a cabeça e resolvi dizer a verdade.- Cinco minutos, talvez.
Se alguém está à procura de um livro sensível , que conduza a pensamentos mais profundos e, ao mesmo tempo, te deixe encantado com os mistérios da vida, eis aqui uma dica preciosa: A garota das laranjas . Leia e descubra-se apaixonado por essa narrativa diferente e, como não me canso de dizer, toda especial!
Neste novo livro de Jostein Gaarder - o autor que conquistou milhões de leitores de diversas idades com O mundo de Sofia e outros sucessos internacionais -, uma carta que ficou guardada por muito tempo revela ao adolescente Georg Roed uma história extraordinária. O autor da carta é o pai do menino, morto há onze anos - ele escreveu esta longa mensagem de despedida para que o garoto pudesse lê-la depois, quando estivesse mais maduro. [...] Alternando entre a voz de Georg e a do pai, Jostein Gaarder constrói uma narrativa pontuada com perguntas filosóficas, que tratam de temas como o amor, a morte e a grandeza do universo.
Se você gosta de apreciar os bons momentos da vida e sabe compreender a importância de um momento, sabe valorizar aquele que está ao seu lado, prepare-se para sentir seus olhos marejados; se você ainda não parou para pensar em sua própria existência e em como tudo é tão fugaz , tão pequeno, eis uma excelente oportunidade de abrir não só os olhos, mas a mente e o coração.
Deixo então dois de meus trechos preferidos, leia com atenção e reflita ( depois diga-me o que achou ^^):
Se tudo que aconteceu no universo pudesse se condensar num único dia, a Terra só teria surgido no fim da tarde. Os dinossauros apareceriam alguns minutos antes da meia-noite. E os seres humanos existiriam há apenas dois segundos...
Eu me detenho diante dela. Com muito cuidado, acaricio-lhe o cabelo úmido e pouso a mão na fivela de prata em sua nuca. Embora esteja gelada, aquece todo o meu corpo. Porque eu estou mesmo tocando aquela fivela!
Então pergunto:- Quando a gente vai se encontrar outra vez?Ela olha fixamente para o asfalto antes de erguer os olhos e me fitar. Suas pupilas dançam, inquietas, tenho a impressão de que seus lábios estão trêmulos. Então ela apresenta um enigma com o qual ainda hei de quebrar muito a cabeça. Pergunta:- Quanto tempo você consegue esperar?Que diabo de resposta eu podia dar, Georg? Talvez fosse uma armadilha. Se dissesse "dois ou três dias", eu me mostraria impaciente demais. E, se respondesse "a vida inteira", ela podia pensar que eu não a amava tanto assim ou talvez que não fosse sincero. De modo que era preciso encontrar uma resposta intermediária.Eu disse:- Agüento esperar até que o meu coração comece a sangrar de aflição.Ela sorriu, insegura. Então roçou o dedo em meus lábios. E perguntou:- E quanto tempo demora?Desesperado, eu sacudi a cabeça e resolvi dizer a verdade.- Cinco minutos, talvez.
Leitura: Conto "Felicidade Clandestina", de Clarice Lispector
15:55 A leitora 0 Comentários Categoria : euamolivros , Felicidade Clandestina , Hora da Leitura , leitura
Para todos aqueles que não se contentam em ler o livro e devolvê-lo à biblioteca, que adoram o cheirinho de um livro novo, que ficam eufóricos ao ganhar um livro de presente, que não conseguem conter a alegria quando compram um livro, para quem ama livros ... eis alguém que compartilha esse sentimento com você: (
São Paulo, Ed. Ática, 1996
Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme; enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como "data natalícia" e "saudade".
Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.
Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.
No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se repetir com meu coração batendo.
E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.
Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser." Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.
Para todos aqueles que não se contentam em ler o livro e devolvê-lo à biblioteca, que adoram o cheirinho de um livro novo, que ficam eufóricos ao ganhar um livro de presente, que não conseguem conter a alegria quando compram um livro, para quem ama livros ... eis alguém que compartilha esse sentimento com você: (
São Paulo, Ed. Ática, 1996
Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme; enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como "data natalícia" e "saudade".
Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.
Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.
No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se repetir com meu coração batendo.
E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.
Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser." Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.
A Breve Segunda Vida de Bree Tanner - 1º Capítulo
21:15 A leitora 2 Comentários Categoria : A Breve Segunda Vida de Bree Tanner , Crepúsculo , Hora da Leitura , leitura , twilight
Tenho estado um pouco ausente, por isso resolvi recompensá-los um pouquinho! o que acham de uma olhadinha em "A breve segunda vida de Bree Tanner" ? Acho que já deu para notar que eu gosto da saga né ?! Então, para quem ainda não leu, leia aqui no Aos leitores o 1º capítulo do livro *__* ... e quem já leu, faça um comentário (mas sem deixar spoliers hein?) ... aproveite!
Tenho estado um pouco ausente, por isso resolvi recompensá-los um pouquinho! o que acham de uma olhadinha em "A breve segunda vida de Bree Tanner" ? Acho que já deu para notar que eu gosto da saga né ?! Então, para quem ainda não leu, leia aqui no Aos leitores o 1º capítulo do livro *__* ... e quem já leu, faça um comentário (mas sem deixar spoliers hein?) ... aproveite!
Texto finalista na categoria Crônica da Olimpíada de Língua Portuguesa 2010
22:32 A leitora 0 Comentários Categoria : Crônica , Hora da Leitura , leitura , Olp-2010 , texto
Hey Leitores! Depois de ler aqui o texto finalista na categoria Memórias Literárias e saber um pouco mais sobre como era Cordeirópolis, leia também outro texto finalista, dessa vez na categoria Crônica. Aprecie e deixe sua opinião, ela é sempre muito bem-vinda ;)
![]() |
| Praça Central de Cordeirópolis |
Aos poucos, fui me aproximando daquela humilde senhora até que comecei a sentir ternura por suas alvas madeixas e não deixei de notar que nós duas tínhamos muito em comum.
“Como sou distraída! Me desculpe vovó, estou atrasada”.
Hey Leitores! Depois de ler aqui o texto finalista na categoria Memórias Literárias e saber um pouco mais sobre como era Cordeirópolis, leia também outro texto finalista, dessa vez na categoria Crônica. Aprecie e deixe sua opinião, ela é sempre muito bem-vinda ;)
![]() |
| Praça Central de Cordeirópolis |
Aos poucos, fui me aproximando daquela humilde senhora até que comecei a sentir ternura por suas alvas madeixas e não deixei de notar que nós duas tínhamos muito em comum.
“Como sou distraída! Me desculpe vovó, estou atrasada”.
Texto finalista na categoria Memórias Literárias da Olimpíada de Língua Portuguesa 2010
20:28 A leitora 0 Comentários Categoria : Hora da Leitura , leitura , Mémorias Literárias , Olp-2010
Olá Leitores! O texto que disponibilizo aqui foi escrito por uma aluna da Escola Jamil Abrahão Saad, da cidade de Cordeirópolis, em 2010, para participar da Olimpíada de Língua Portuguesa, sendo que, como consta no título do post, foi um dos finalistas. Uma vez que o tema da Olimpíada é "o lugar onde vivo", viaje no tempo e conheça um pouco da história da pequena-grande cidade chamada Cordeirópolis.
| Alunos na estação ferroviária de Cordeirópolis |
Olá Leitores! O texto que disponibilizo aqui foi escrito por uma aluna da Escola Jamil Abrahão Saad, da cidade de Cordeirópolis, em 2010, para participar da Olimpíada de Língua Portuguesa, sendo que, como consta no título do post, foi um dos finalistas. Uma vez que o tema da Olimpíada é "o lugar onde vivo", viaje no tempo e conheça um pouco da história da pequena-grande cidade chamada Cordeirópolis.
| Alunos na estação ferroviária de Cordeirópolis |




















